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segunda-feira, 5 de julho de 2010

A tristeza permitida


Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?
Você vai dizer "te anima" e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.
Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.
A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.
“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.
Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.

Martha Medeiros
Conto extraído do livro: Doidas e Santas

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Antonieta também quer o charme dos carros!

Segunda feira 8:10da da manhã... e eu aqui no meio do caminho correndo meia quadra e parando dez minutos para descansar! Eu devia ter parado de fumar.
Mas sabe como é né? Hoje é segunda-feira! Ontem bebi demais e para falar a verdade só dormi uma hora, ainda estou zonza e meu estomago rejeitaria até ar agora... Mas mesmo assim estou indo lá.. Pela quarta vez!
Hoje eu passo nessa tal de auto-escola! Quem são eles pra reprovar Antonieta? Eu tenho meu próprio estilo de dirigir... Eu que deveria dar aulas para eles... Não têm a mínima idéia do que é diversão no volante, sempre tão sérios tão tensos, credo!
Finalmente chegando, até posso imaginar meu instrutor batendo o pé e me olhando de cara azeda! Vou recomendar sexo pra ele, que cara chato! O que são vinte minutinhos de atraso?
-Bom dia Professor!
-Você esta atrasada... De novo!
- Ah o que são vinte minutinhos? Não seja dramático!
- Antonia... Você esta com uma cara horrível!
- Eu também adoro você!
-Ok! Vamos logo com isso!
Entramos no carro e ele me olhando com aquela cara de quem diz: Eu sei que você vai rodar, pra quê esse teste?
Mas eu já comecei bem dessa vez, não liguei o radio assim que entrei no carro... E não esqueci o cinto! Mas...
- Antonieta é visível sua melhora no volante... Mas ainda falta muito.
-Como assim? Eu fui ótima!
-Claro! Você só ultrapassou em todas as vias o limite de velocidade e dois sinais vermelhos... Xingou uma velhinha na faixa de segurança e, por favor, Antonia você esta de ressaca!
-Você é muito exagerado mesmo! Quanto drama por isso... Aquela velinha me provocou! E o termo certo seria bêbada ainda nem deu tempo para virar ressaca ok?!
-Por favor, ela tinha uns 90 anos!
- Quer saber estou muito bem a pé! Não queria mesmo essa merda de carteira de motorista!
-Nos vemos ano que vem não é Antonieta?
- É...
Não adiantava por mais que eu dissesse que não queria a carteira e motorista eu tentava todo ano e todo ano era a mesma coisa... Pelo menos ele disse que eu fui melhor dessa vez. Maldita velhinha... se não fosse por ela eu tinha passado!
Andressa Duarte
Gostou da antonieta? aqui tem mais um conto ^^: http://terradonada2.blogspot.com/2010/02/sabe-esses-dias-andei-tendo-uma.html

sábado, 7 de novembro de 2009

O Velho K.

O velho saiu de sua casa no mesmo horário dos dias anteriores, exatamente as três e quarenta e seis da tarde. O Sol já estava brilhando em um céu pontilhado por nuvens cinza e repolhudas.
Ele andava devagar, arrastando os pés. Todos que o viam andar achavam que deveria ser decorrência da idade já bastante avançada, mas na verdade era pelo simples fato de que em suas pernas existiam feridas que nunca curavam, e se não fossem as bandagens amareladas, que ele lutava em tentar esconder com meias sociais altas, um pus fétido escorreria pelas calçadas.
O velho K. passou lentamente por uma janela de vidro e se examinou por um instante.
Segundo ele, estava elegante. O mesmo terno azul marinho que vinha usando já a semanas, a camisa social branca, que já não era mais branca, e sim amarelo sujo, e a gravata no mesmo tom do terno, presa ao pescoço com um nó simples.
Ele ajeitou a gravata e passou as mãos suarentas pelos poucos cabelos que lhe adornavam a cabeça. Deu uma rápida coçadinha em uma ferida que havia em sua testa, retirando com a unha a casca que já começava a se formar. Limpou a unha nos dentes amarelos e seguiu seu caminho, deixando para trás dois atendentes da loja, cujo vidro tinha lhe servido de espelho, ligeiramente enjoados.
O Velho K. levou cerca de vinte minutos para fazer um percurso que qualquer outra pessoa levaria menos de dez. Com seus passos miúdos e com sua mente mentalizando o que teria que fazer no destino que almejava, quase foi atropelado por um motociclista que fez a curva na esquina em velocidade um pouco elevada.
-Acorda!-gritou o motociclista mal educado.
O Velho K. deu um pequenino, pequenino mesmo, salto para trás, mal movendo os pés do chão. Em um gesto de protesto, ele ergueu a sua mão tremula no ar ameaçando esbofetear o motociclista.
Mas nem esse quase atropelamento fez o Velho K. desistir de seu objetivo. Ele tinha que seguir, ele precisava. Obstinação era seu nome.
Ele voltou para a calçada, para longe dos velozes veículos automotores, estava seguro contra atropelamentos. Ele respirou aliviado. E quase foi atropelado por uma criança em um triciclo.
-Desculpa vô!- gritou o pequeno menino.
-Não se tem mais respeito!- gritou o Velho K. com sua voz tremida- Não se pode mais nem andar pelas calçadas sem que esses malucos tentem passar por cima da gente! No meu tempo... - mas ele se calou ao ver que o menino já ia longe com o seu triciclo.
Ele amarrou a cara e voltou a seguir o seu caminho. Agora faltavam poucos metros para chegar ao seu destino.
Com muita dificuldade o Velho K. chegou onde queria. Venceu os dois degraus e entrou na cafeteria enfumaçada e mal cheirosa. Finalmente tinha chegado ao seu destino.
Ele caminhou até sua mesa de costume, a que ficava bem no centro da loja, onde ele podia ver todos e todos podiam vê-lo. Com dificuldade ele se sentou na cadeira e puxou a delicada mesa de tampo de vidro para perto.
Um rapaz, no auge de seus vinte e poucos anos, se aproximou, a contragosto, para atendê-lo. O rapaz fez cara de nojo ao sentir o cheiro que exalava do corpo do Velho K. Era um cheiro acre, uma mistura de urina com cheiro de ferida infeccionada.
-Pois não?- perguntou o rapaz tentando não deixar visível o quanto queria se ver longe dali.
O Velho K. então ergueu a mão no ar, com ligeira dificuldade e começou a balançar o dedo indicador e a dizer:
-Um leite morno, dois envelopes de açúcar, e um copo de água da torneira, normal sem gás.
O rapaz anotou o pedido e em pouco tempo já estava de volta com o pedido em uma bandeja bege grande, que a depositou em frente ao Velho K. desejando não ter feito isso, pois sabia o que iria acontecer.
E o que se seguiu foi algo surpreendente.
Primeiro foram os envelopes de açúcar. Foram massacrados. O Velho K. os pegou sem piedade e sacudiu-os com violência rasgando-os ao meio sem piedade, espalhando seu conteúdo imaculado por toda a bandeja. Pouco foi parar no leite morno. Os envelopes foram picados em pedaços miúdos e depositados na bandeja como restos de soldados mortos em batalha.
A colher foi a sua próxima vítima. Ele a pegou com seus dedos ensebados e a mergulhou no leite e começou a mexer vigorosamente. Não se soube se a sua intenção era quebrar a colher ou arrancar o fundo da caneca. Mas novamente a bandeja foi à principal vítima, sendo assolada por golpes de leite quente que se juntavam aos restos dos envelopes e açúcar numa tentativa frívola de se salvar.
Então, o pior aconteceu. O Velho K. apanhou o inocente guardanapo de papel branco.
O rapaz que o atendeu chegou a ficar com a respiração suspensa por um tempo. Ele já sabia o que estava por vir.
O Velho K. desdobrou o guardanapo e o levou até o nariz. Reunindo forças em seus pulmões, ele limpou o nariz produzindo um grande barulho. Voltou a dobrar o guardanapo e resolveu secar os lábios, depositando-o cuidadosamente dobrado em um pequeno quadrado sob a caneca de leite.
Após a preparação, o Velho K. começou a beber o seu leite. Sorveu um gole. Achou um pouco quente demais. Apanhou a sua água e virou um pouco na caneca, e boa quantidade na bandeja. Bebeu um pouco mais e voltou a completar a caneca com a água. E assim foi até não ter mais leite.
Fazia um pouco de calor. O Velho K. suava ligeiramente devido ao esforço de massacrar as inocentes coisas de sua bandeja. Ele voltou a apanhar o seu guardanapo e o passou pela testa suada. Ainda não se sentia refrescado. Ele então notou que sobrara um pouco de água no copo. Não pensou duas vezes. Mergulhou o guardanapo na água, dando-lhe uma pequena torcida para retirar o excesso. Voltou a passá-lo pela testa, agora sim se sentindo mais refrescado. Fez isso mais vezes, até a água do copo ficar turva.
Foi sob o olhar assombrado do rapaz que o Velho K. terminou seu ritual.
Após analisar a água que restava no copo, o Velho K. a sacudiu, como se tentando fazê-la voltar a ficar cristalina, e em seguida a bebeu de um gole só.
Sentindo-se satisfeito, o Velho K. se levantou e foi até o caixa, onde pagou a sua conta com um cheque, que ele pediu que segurassem até segunda-feira. Com profundo alívio por ele estar saindo da loja, o rapaz aceitou o cheque.
O Velho K. saiu da cafeteria, deixando para trás seu cheiro de azedo e os restos de sua batalha com a bandeja.
O rapaz se aproximou da mesa em que o Velho K. estivera e, com profundo nojo, apanhou a bandeja depositando-a na pia.
Cheio de repulsa, o rapaz apanhou uma garrafa de álcool e jogou por cima da louça talheres e o guardanapo. Pode parecer besteira, mas o guardanapo gemeu baixinho. Assustado, o rapaz se aproximou um pouco do guardanapo e percebeu que ele se mexia levemente. Receando ser algum inseto nocivo, ele jogou um pouco mais de álcool sobre o guardanapo, que rosnou mais alto
Do lado de fora da cafeteria, o Velho K. sorriu maliciosamente quando ouviu o grito de susto do rapaz e o som de luta. Um novo hospedeiro havia sido escolhido.
Alex Petiz
Conheceu o Velho K. em carne osso e perebas.